Resenha: Olhai os lírios do campo (Erico Verissimo)

cia_letras_olhai

E aí pessoal, essa é a primeira resenha do ano e o blog traz um clássico da literatura brasileira. O tão consagrado autor de O Tempo e o Vento, Erico Verissimo aborda dentro dessa obra alguns questionamentos que fazemos ao longo da vida. Em Olhai os lírios do campo o enredo

é contado em dois momentos: o primeiro, está se desenvolvendo na ida do personagem principal (Eugênio) ao encontro de sua amada (Olívia) que está muito mal em um hospital. Já no segundo plano temos a história de Eugênio sendo contada desde o início, pegando sua fase de infância até os dias atuais.

Eugênio foi um menino criado em internato e que sempre foi motivo de chacota pelos amigos por ser pobre e aguentava qualquer tipo de brincadeira calado. Desde a sua infância Eugênio nutria uma espécie de rancor em relação ao seu pai, um sujeito que mesmo fazendo um esforço do mundo como pai, ele não conseguia admirar nem amar, até sentia vergonha, quando estava em algum ambiente que o pai aparecia. O pai alfaiate por outro lado era só elogio para com o menino, fez de tudo para dar- lhe uma boa educação colocando-o em um internato privado, um colégio inglês cristão só para rapazes, o Columbia College.

Após este período de internato Eugênio entra para a universidade de Medicina. Já fadado por viver em uma vida miserável, conhece Eunice, uma mulher rica e que agora seria seu porto seguro. Eugênio formou- se em Medicina, mas nunca teve pretensões de querer trabalhar como médico em um subúrbio. Ele gostava de luxo, de status social e queria fugir da pobreza, longe de tudo aquilo que ele bem conhecia de perto.

O tempo passa e Olívia vai para outra cidade trabalhar e Eugênio cada vez mais obcecado em enriquecer e ser respeitado. Enriqueceu casando com a filha de um industrial, mas continuou sentindo- se inferior. Pensava o tempo todo em Olívia. Tinha também uma amante, mas o vazio não acabava. Antes de partir, Olívia deixa várias cartas para Eugênio.

O casamento era apenas fachada onde ele fingia amar Eunice, mas pensava em sua amada do passado Olívia. Isso o corroía por dentro, pois Olívia fora sua parceira no curso de medicina e ele sabia que seu casamento com Eunice não o traria nenhum beneficio a não ser o financeiro. Olívia era a única mulher da turma de Medicina de Eugênio. Ela também era pobre, formou- se com sacrifício, trabalhando e estudando ao mesmo tempo. Começaram um idílio no dia da formatura. Um amor puro. Mas, cada um foi para o seu lado.

Eugênio tinha constantes indagações sobre a existência de Deus. Ele achava que se Deus realmente existisse por que ele tinha tantos sofrimentos e problemas. O pai sofria de uma doença crônica, tosses intermináveis e asma. Este foi o grande desejo dele em se formar em medicina, ajudar o pai. Mas a via de mão dupla que ele estava impossibilitava ele de ver uma segunda forma de olhar a vida como ela realmente era. Mesmo ele não gostando dessa vida suburbana ele admirava o Dr. Seixas, que atendia os pobres sem nada cobrar. Mas ele, formado, não conseguia fazer o mesmo, odiava atender gente miserável.

Acredito que uma das cenas mais lamentáveis do livro ocorre quando Eugênio estava caminhando na rua com dois conhecidos da universidade e avistou seu pai vindo em sua direção. Segue abaixo um pequeno trecho:

“Eugênio viu um vulto familiar surgir a uma esquina e sentiu um desfalecimento. Reconheceria aquela figura de longe, no meio de mil… Um homem magro e encurvado, mal vestido, com um pacote no braço, o pai, o pobre Ângelo. Lá vinha ele subindo a rua. Eugênio sentiu no corpo um formigamento quente de mal- estar. Desejou– com que ardor, com que desespero! – que o velho atravessasse a rua mudasse de rumo. Seria embaraçoso, constrangedor se Ângelo o visse, parasse e lhe dirigisse a palavra”.

A sensação quando se lê este trecho é de nó na garganta, pois Eugênio ao voltar pra casa senta-se a mesa e não consegue olhar para a cara do pai. Pai este que de tão envergonhado, chega apenas a sorrir para ele e não recebe nada em troca. Eugênio realmente é um personagem difícil de engolir por vários momentos e vai tornando-se menos intragável ao longo da leitura, acredito eu que quase no final do livro.

  Em alguns capítulos que antecedem o final vamos conhecendo o conteúdo dessas cartas e um em destaque nos revela o título do livro:

“Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? Não vos preocupeis, dizendo: ‘Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?”

olhai-os-lirios-do-campo

Bem, espero que tenham gostado da resenha! Segue abaixo um pequeno resumo das obras de Verissimo.

Érico Veríssimo (Cruz Alta, 17/12/1905 – Porto Alegre, 28/11/1975) publicou em 1938, “Olhai os lírios do campo”, que está sendo resenhada hoje e é seu quinto romance. O primeiro, “Clarissa” (1933), “O tempo e o vento” (em três partes, escritos entre 1949 e 1962), série esta que já foi lida por mim e devidamente resenhada aqui e que vale muito a pena ler. “O resto é silêncio” (1943) e também “Incidente em Antares” (1971). Lembrando que algumas obras já viraram séries e também tiveram adaptações para o cinema.

Obrigado galera!!!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s