Resenha: O Tempo e o Vento; O arquipélago Vol. 3 (Erico Verissimo)

capa

Chegamos ao último livro da série e já estou pensando em reler num futuro breve. É assim, quando a leitura é boa não têm como ser diferente! Vou apresentar a resenha e depois lanço minhas considerações finais, ok?

Tradicionalmente e o que já se espera de uma série, trilogia, seja lá qual for à proposta do livro, o final sempre será o momento em que são colocados os pingos nos “is”, e é a hora que o autor encontra soluções para todos os problemas entre outras coisas. Erico Verissimo traz tudo isso e um pouco mais, pois sua trilogia aponta não apenas fatos da história da formação de um povoado como também a trajetória de vida, da política e as tradições dessa gente. O foco na verdade gira entorno da família Terra Cambará que fomos conhecendo livro após livro, ano a após ano desde a formação dos Terra, até a última fase quando o sobrenome Cambará é incorporado surgindo assim esse núcleo. Aviso aos navegantes que esta última resenha terá sim spoilers, é fato!

Já as vésperas de seu grande romance, o personagem Floriano continua sendo bem ativo, tanto fora do sobrado quanto dentro do sobrado. Ainda utilizo os capítulos para dar ordem à execução das minhas resenhas. Temos os capítulos; O cavalo e obelisco, As reuniões de família V e VI, Noite de Ano-Bom, Caderno de pauta simples, Do diário de Silvia e Encruzilhada.

Ano de 1930, final de julho. Rodrigo convida seus amigos para o aniversário de Flora no sobrado e entre os convidados já conhecidos, temos uma nova, Roberta Ladário. Recentemente chegada à cidade ela é bonita, sexy, e é conhecida pelas mulheres da cidade como sendo uma mulher “moderna”, longe de ser uma pessoa bem vista por elas. Rodrigo como já não é de se esperar começa investir todo seu charme já conhecido para conquista Roberta. Não preciso nem dizer onde isso foi parar né?

Anterior a esses acontecimentos, no ano de 1928 houve a aceitação de Getúlio Vargas como governador do Rio Grande do Sul. Em Santa Fé, Rodrigo Cambará torna-se intendente, e no ano seguinte Floriano decidi virar escritor. Temos a queda da bolsa de valores de Nova York, colapso na economia cafeeira do Brasil. Paulistas e mineiros se desentendem sobre a sucessão presidencial. Getúlio Vargas e o paraibano João Pessoa, como vice, lançam-se candidatos pela oposição. Vitória de Júlio Prestes, candidato dos paulistas, em meio a acusações de fraude.

1930 é um ano difícil. João Pessoa é assassinado no Recife. No dia 3 de outubro, eclode a revolta no Rio Grande do Sul. Vários conflitos se iniciam neste ano e Rodrigo arregimenta forças oposicionistas em Santa Fé e invade o quartel do Exército, obrigando Floriano a ajuda-lo. O tem. Bernardo Quaresma, amigo da família, morre ao defender a oposição legalista. Rodrigo aceita o convite de Getúlio Vargas para viajar ao Rio de Janeiro.

Nos anos seguintes para resolver uma crise financeira Rodrigo aceito um cartório no Rio de Janeiro e leva junto com ele Flora e os filhos. Em Santa Fé Toríbio apoia a revolta. Em São Paulo temos a insatisfação com o atual governo e a exigência de uma nova constituição para o Brasil. No Rio Grande do Sul Borges de Medeiros adere ao movimento e em 9 de julho, começa a luta armada em São Paulo. Os fatos ocorridos naquele período foram de muita importância para a construção do romance e Verissimo retrata de forma brilhante. Em 1937 dentro do romance o personagem Arão Stein, amigo de Rodrigo, parte para a Espanha para juntar-se às Brigadas Internacionais. Fugindo de sua paixão platônica por Silvia, Floriano começa um romance com a norte-americana Marian (Mandy) Patterson.

Sabendo da legitimidade do golpe militar no governo Vargas, Rodrigo volta a Santa Fé para convencer os amigos, mas o que encontra são oposições principalmente por parte do seu irmão Toríbio. Em 1931 ele festeja o noivado de seu filho Jango com sua afilhada Sílvia (preciso nem dizer a reação de Floriano, desolamento geral). Nesta festa Toríbio rompe com Rodrigo e sai para desabafar com Floriano levando-o a um bar bem baixo nível e neste mesmo bar após arranjar uma encrenca Toríbio é esfaqueado e morre.

No ano de 1938, Floriano e Mandy se separam e ele vai morar nos Estados Unidos. Em 1939 Arão Stein refugia-se na França e em 1940 ele retorna a Santa Fé. Arão é preso, torturado e tido como comunista. No ano de 1941, Silvia começa a redigir um diário (que por sinal é um dos melhores relatos deste ultimo livro), no qual ela reflete sobre seu fracasso amoroso no casamento. Faz um registro magnifico do período vivido no Sobrado neste período da Segunda Guerra. Floriano passa alguns dias no Sobrado antes de embarcar novamente aos Estados Unidos como professor convidado na Universidade da Califórnia.

Em 1942, houve algumas revoltas tanto no âmbito ficcional como em cidades reais brasileiras contra os alemães. Muitas colônias, lojas e empresas cujos proprietários eram de descendência alemã tiveram seus patrimônios quebrados, depredados. Temos neste ano o retorno do pintor Pepe García responsável por pintar o famoso quadro de Rodrigo. Em 1943, nos Estados Unidos Floriano reencontra Mandy e Arão Stein é expulso do Partido Comunista sob acusação de ser trotskista. No ano seguinte o cabo Lauro Caré é morto ao enfrentar sozinho uma patrulha alemã e torna-se um herói de guerra.

Em 1945, Floriano que estava nos Estados Unidos retorna a Santa Fé e seu pai que já estava com uma saúde bem debilitada por problemas cardíacos volta do Rio de Janeiro para o Sobrado com a família. Sônia Fraga a jovem amante de Rodrigo que também morava no Rio também o acompanha. Ele também sofre de um edema agudo de pulmão.

Assim como no inicio da trilogia até o final dela a presença feminina na obra do Verissimo é de uma força inquestionável. É a mulher que esta ao lado da família, no apoio ao marido, a rezar pelos filhos e marido que foram à guerra e a sofrer sem reclamar. Na página 294 de O arquipélago em uma das várias reuniões que pudemos acompanhar no quarto de Rodrigo, Floriano reflete bem a figura da mulher dentro e fora do Sobrado:

“…mas sem mulheres como a velha Ana Terra, a velha Bibiana e a velha Maria Valéria (isso para citar só gente de casa)não existiria também o Rio Grande. Elas eram o chão firme que os heróis pisavam. A casa que os abrigavam quando eles voltavam da guerra. O fogo que os aquecia. As mãos que lhe davam de comer e de beber. Elas eram o elemento vertical e permanente da raça.”

E assim foram construídas estas mulheres, de raça, de fibra e inexoravelmente guerreiras. A última delas já nos momentos finais do livro está tão afiada quanto no inicio, Maria Valéria, que agora já com a vista totalmente tomada pela catarata vive praticamente guiada pelo a audição e com aquela sua velha mania de dar palpites (certeiros por sinal).

O final (ai meu Deus, o final!)… É aquele momento do aperto no coração, de conter a emoção e por que não ler o livro bem devagarinho pra não acabar. Foi difícil se separar de personagens tão brilhantes, ficaria aqui por mais umas 100 páginas divagando sobre todos eles. Pois vamos ao final!

Do diário de Sílvia é o penúltimo capítulo do livro. Nele vamos encontrar relatos comoventes da personagem, sua visão da guerra, de seus conflitos internos, do povo do Sobrado e sua relação com seu marido e do seu desprendimento amoroso com o seu cunhado. Para compreender um pouco sobre esta evolução digamos espiritual de Sílvia vou apresentar rapidamente o motivador de seus novos pensamentos.

Em um dado momento da obra, Toríbio irmão de Rodrigo descobre que têm um filho, filho este que cresce e torna-se marista. Na cidade todos o conhecem por irmão Zeca. Este mesmo Irmão Zeca/ ou Toríbio passa a ser um dos maiores amigos de Sílvia e guarda por esta jovem moça uma pequena admiração que ele fez questão de tolher, até por que a religião não permitia. Em uma das páginas do seu diário, Silvia recorda uma conversa com Irmão Zeca e diz que apesar do difícil convívio com sua mãe ela deveria ter se esforçado em amá-la quando viva. Ele relata para ela que mesmo sendo um homem da igreja (ordem Sociedade de Maria) ele também teve seus conflitos domésticos e que um deles era o de ter vergonha de sua mãe ter sido lavadeira.

E durante todos os períodos de solidão e conflitos, Irmão Zeca foi como um arauto de esperança e conforto para Sílvia. Roque Bandeira ou Tio Bicho também foi muito importante na vida de Sílvia. Visitante assíduo do Sobrado Tio Bicho nesta última etapa do livro é o que mais frequenta os chamados “serões” do casarão. Ele é uma espécie de enciclopédia ambulante, de tudo entende e sempre dá sua opinião quando é preciso. Tio Bicho foi elementar para a companhia das mulheres quando o casarão praticamente estava vazio em épocas de revoluções. Era conselheiro, amigo e as vezes opiniático.

Ainda em dezembro de 1945, Arão Stein se enforcou nos galhos da velha figueira que fica na praça da Matriz. Nada foi dito ao Rodrigo para não abalar seu estado de saúde. Rodrigo já sabia que Arão sofria de transtornos mentais devido às torturas que sofrera durante seu tempo de prisioneiro. O velório e o sepultamento foram feito de maneira que Rodrigo não soubesse.

O momento mais esperado por mim e acho que por todos os leitores foi à hora em que Floriano acometido por um ato de coragem resolveu desabafar todas as suas mágoas e amarguras com o pai. No momento em que os dois estão no quarto, abre-se o diálogo de um filho que levava um fardo desde pequeno nas costas, um filho que nunca foi visto como um representante do sobrenome Cambará e o pai sempre o acusara de não ver nele os traços de um Cambará e sim a inércia de um Terra, passivo a tudo. “…Sempre te censurei por não usares este corpo. Vivia te dizendo que era bom soltar de vez em quando o Cambará que tens dentro de ti, preso pelos Terras e pelos Quadros (sobrenome do Avó por parte de Mãe).

Floriano que sempre esteve a favor da mãe levantou questões sobre a infidelidade do pai, acusou-o de ter levado a amante para viver na mesma cidade desrespeitando a família sem contar nas escapadas do velho. Floriano jogou todas as verdades na cara do pai. Lembrou a ele um momento na véspera de Natal quando tinha apenas dezesseis anos, e estava namorando com a filha de um relojoeiro italiano. Flora sua mãe sabendo do namorico do filho convida a jovem a passar a noite de Natal no Sobrado. Num dado momento Floriano nota a ausência da moça e tem um mal pressentimento. Ele começa a procurar pelo casarão e quando chega ao escritório da de cara com a moça sentada no colo de Rodrigo. O pai estava apalpando a menina de todas as formas e Floriano saiu correndo para a água-furtada (espécie de sótão que as janelas abrem para o telhado da casa).

Por último não menos importante Floriano lembra ao pai o dia em que ele Rodrigo Cambará acertou-lhe um pontapé na bunda e lhe disse palavras que o machucaram durante vários anos. O ano era 1930 e o episódio aconteceu quando Rodrigo precisou da ajuda dele para atirar no Bernardo Quaresma (sim aquele mesmo amigo de Rodrigo que já falamos sobre, tentou matá-lo) só que na hora “h” Floriano não consegue atirar. O pai revoltado revida dizendo “Covarde! Não és meu filho! Vai pra baixo da saia de tua mãe, maricas!”.

Daí pra frente tem a lavagem de roupa mais linda que já li na vida, rsrs. Eles se entendem, tudo fica resolvido e o convívio dentro do Sobrado passa a ter ares mais leves. Floriano recebe de Sílvia o diário que ela havia escrito durante o tempo em que ele passou fora com o pedido de que ele lê-se e devolvesse sem comentar nada. Ele lê, devolve e fica feliz por Sílvia estar grávida e que o filho que ela espera esta dando um novo sentido para vida dela.

Louco pra voltar a sua vida habitual, Rodrigo recebe de seu médico Dante Camerino a notícia que seu coração já não está tão debilitado e seus pulmões voltaram a normalidade. Dante pede que Rodrigo retorne ao Rio para que ele seja assistido por médicos de lá, onde o tratamento e os recursos são maiores que em santa fé. Rodrigo feliz da vida manda Neco, seu fiel barbeiro e amigo comprar uma passagem para sua amante e avisa a ela que ele está embarcando para o Rio de Janeiro o mais breve possível.

No dia 21 de Dezembro de 1945, Rodrigo recebe os amigos no sobrado em seu velho e habitual modo das reuniões para discutir sobre política e a vida. No final da reunião os convidados foram saindo ao poucos e Floriano que estava por último junto com Dante perguntou se o pai precisa de alguma coisa, ele disse que não, tomou seu remédio e foi dormir. Na madrugada do dia 22 veio a falecer Floriano acordou no meio da madrugada, abalado por um pesadelo, lavou o rosto e resolveu sair do quarto. Quando estava descendo as escadas encontrou sua tia Maria Valéria segurando um castiçal com uma vela acesa. Ela sombriamente perguntou:

– Você também ouviu?

– Ouviu quê?

– Uma pessoa entrar…

Rapidamente Floriano pediu para ver o pai. Quando chegou ao quarto Floriano viu que o pai estava dormindo e disse:

– Esta dormindo.

Maria Valéria deu alguns passos e colocou o castiçal próximo ao rosto de Rodrigo e Floriano pode ver os olhos vítreos do pai. Rodrigo Cambará estava morto. Floriano ainda grita:

– Enfermeiro!

Mas sua tia responde:

– É tarde, seu pai está morto.

Juro por Deus que foi emocionante esta parte. Fiquei uns minutos estatelados segurando o livro sem querer acreditar, pois a hora que a gente lê a passagem do médico dizendo que ele tá bem e que pode viajar, subentende-se que ele realmente iria. A chamada “melhora da morte” teve seus dias de glória aqui na obra. Rodrigo foi sepultado às seis e meia da tarde daquele dia.

O final do livro é também o final do ano de 1945. Alicinha Cambará, irmã de Floriano chega a Santa Fé junto com o marido, e têm aqueles velhos conflitos que só existem em reuniões de família. Floriano conversa com Irmão Toríbio sobre a vida. E o mais legal de tu é que Erico Verissimo coloca vários parágrafos com vários personagens e o que estava acontecendo com cada um deles naquela noite de Ano-Bom.

É galera, é com um imenso pesar que me despeço dessa obra maravilhosa, espetacular e que não foi o fim para mim, tem ainda alguns materiais que vou querer ver, como a série completa da Globo e o Filme. Temos ainda várias outras obras para nos deliciar do Erico. Sim, quero com certeza reler este clássico em breve! Fico por aqui (por enquanto!) e volto com mais resenhas de autores tão espetacular quanto. Gostaria de agradecer a Tati Feltrin do TLT que iniciou o projeto e que nos fez ficar meses com a melhor história que eu já li. Obrigado Tati e obrigado a vocês por acompanharem o projeto. 

livro anterior: O arquipélago vol.2

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