Resenha: O Tempo e o Vento; O arquipélago Vol. 2 (Erico Verissimo)

capa

No livro anterior tivemos grandes acontecimentos e neste não será diferente e os conflitos que vivemos no primeiro livro se adensam ainda mais. O tempo de paz que houve após o término da revolução de 23 foi curto e a família Terra cambará enfrentam outros períodos turbulentos. As guarnições militares das Missões se rebelam e Toríbio, irmão de Rodrigo, une-se a elas na formação de uma coluna revolucionária que tem como líder, um certo capitão Luiz Carlos Prestes. Teremos também a sequência da paixão platônica que Floriano nutre pela cunhada, desenhando um conflito ameaçador na já precária paz familiar.

Gosto de fazer as resenhas desta série seguindo os capítulos do livro. Acho que dá pra ter um apanhado geral e deixa a gente com a sequência correta dos fatos. Neste teremos; Lenço encarnado (continuação), Reunião de família III e IV, os Cadernos de pauta simples e Um certo major Toríbio. Lembrando mais uma vez que todas as resenhas desta série terão forçadamente spoilers.

A coluna formada por Licurgo (pai de Rodrigo e Toríbio) consegue retornar a cidade de Santa Fé e tomam a Intendência. Os arredores da Intendência ficaram tomados por mortos e feridos. Como a cidade ainda estava sendo alvo de novos ataques e sem local para velar os mortos, Maria Valéria permite que os corpos dos amigos que lutaram ao lado de seu primo Licurgo fossem trazidos para o porão do sobrado. Foram nas proximidades de Nova Pomerânia que ao chegar a uma estancia Licurgo foi ferido e acaba morrendo. Com a morte do pai os irmãos Toríbio e Rodrigo Cambará permanecem no conflito. Ambos armam uma estratégia de levar o velho Licurgo para ser enterrado no alto da coxilha no angico da família ao lado do seu amigo Fandango.

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Todos os acontecimentos são marcantes nesta trilogia, mas as melhores passagens são feitas por Maria Valéria. Um em especial é no momento em que Aderbal Quadros (sogro de Rodrigo) chega ao sobrado para contar sobre a morte de Licurgo, ela revela que já sabia e este fato é apenas um dos muitos que a velha revela (confesso que fico sempre esperando a participação dela nos capítulos, rsrs). Acaba o inverno mais não a revolução.

Como não poderia ser diferente nos capítulos de Reunião de família temos os acontecimentos já da época de um Rodrigo enfermo, acamado, sempre com suas reclamações, uma época que ele já não está mais no comando do casarão e sim seu filho Floriano. As visitas são frequentes, porém visitas diferentes daquela época em que o Rodrigo ativo, paquerador, o bom anfitrião não está mais em condições de grandes exageros. Mesmo sendo dessa forma Rodrigo não abandona os velhos hábitos de receber seus amigos mais próximos tendo como tema principal sempre a política.

Nos acontecimentos atuais já no ano de 1945, Floriano tem vários diálogos com Roque Bandeira (Tio Bicho). E estes diálogos quase sempre são sobre sua relação com seu pai, suas inquietações como escritor ou mesmo seu amor impossível com Silvia, sua cunhada. Assim como em todos os livros os diálogos são tão bem construídos que é difícil a gente não se colocar nas situações que eles vivem. E Tio Bicho é o tipo de personagem que é muito sagaz e tem sempre soluções extraordinárias para os problemas ou questionamentos de Floriano ou de outros personagens.

Na verdade o que temos ainda neste livro é um Floriano magoado e sempre com o pé atrás para com o pai. Ele chega a narrar para o amigo Tio Bicho que quando tinha 16 anos o pai mandou o tio levá-lo à casa de uma prostituta e o que fez tomar repulsa pelo pai não foi o de ter ficado com a prostituta, mas de tê-lo forçado aquele momento mesmo ele tendo vontade de estar com aquela mulher. Ele narra também os conflitos conjugais entre o pai e a mãe, sobre a relação de aparência que eles viviam no Rio de Janeiro entre outros.

Já nos capítulos de Cadernos de pauta simples é o momento que Floriano revela seus momentos íntimos, ele é uma espécie de diário onde ele desabafa assuntos do dia e também suas angustias. Neste caderno em especial ele narra o dia em que Alicinha Cambará (sua irmã mais nova) estava muito mal e os últimos momentos da irmã ainda viva. Lembrando que iremos falar dessa morte um pouco mais a frente, pois assim como o autor tive que abrir um parêntese antes.

Em um Certo major Toríbio no ano de 1924, ocorre a Revolução Tenentista em São Paulo onde as forças legalistas atacam a cidade, inclusive de aviões. Foram vários acontecimentos naquele ano e perseguidos os rebeldes se movem para o norte dando inicio a Coluna Luiz Carlos Prestes. Após reunir-se com outras colunas revolucionárias de São Paulo e começam a marcha que durou dois anos por todo o território Nacional.

Mesmo tendo conhecimento dessas revoluções e conflitos Rodrigo enfrenta a maior de todas as tragédias, sua filha Alicinha morre naquele mesmo ano. Ele entra em profundo desespero e abandona definitivamente a medicina, vende a farmácia e o consultório e queima todos os livros relacionados à sua profissão. No finalzinho do mesmo ano seu irmão Toríbio sai de Santa Fé e se junta à Coluna Prestes. No ano de 1925, Floriano vai estudar em um colégio interno em Porto Alegre.

Breve nota: Alguns acontecimentos vividos pelo o escritor Erico Verissimo como o episódio de ter de estudar em um colégio interno em Porto Alegre, é usado como construção do personagem Floriano. Na verdade Verissimo explica que boa parte dos elementos construtivos da obra de O tempo e o vento em especial O arquipélago, é realmente uma alusão ao seu passado em vários momentos. Isso é retratado no gosto pela literatura de Rodrigo e Floriano sendo estes, na vida política, o da boa mesa, os costumes parisienses entre outras coisas. Além de trazer estes aspectos positivos ele também nos revela a grosso modo uma profunda mágoa pelo pai.

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O progresso em Santa Fé era realmente notório em vários campos como no tecnológico, religioso quanto político. Chegavam à cidade as vitrolas, surgiam novos partidos com novas promessas. No campo religioso novas religiões brotavam sorrateiramente como a evangélica e o espiritismo. E num ato de puro desespero após ter perdido sua filha, Rodrigo é levado pelo seu amigo Chiru Mena a um senhor que ao poucos estava ficando conhecido por ver pessoas mortas (espírita). Rodrigo com o intuito de ver Alicinha vai ao encontro deste senhor. Pois bem, chegando a esse tal lugar Rodrigo começa a desconfiar que o tal senhor não consegue ver nada e que ele é um impostor. Até que num dado momento o senhor diz para o Rodrigo que o pai dele esta atrás dele e que esta perguntando pelo seu irmão Toríbio. O velho Fandango (já falecido) também aparece, mas nada da filha dele aparecer.

Já no finalzinho da consulta, surge um espírito de uma velha senhora que pergunta por uma tal de Canela Fina. Injuriado da vida e não acreditando muito ou quase nada Rodrigo sai de lá com algumas revelações que ele julgava não ter valor, porém sem falar com sua filha. Chegando ao sobrado eles revelam o fato para sua tia e pergunta a ela se ela conhecia quem é a Canela Fina e Maria Valéria diz que era como ela era apelidada por uma negra velha que trabalhava em sua casa. Rodrigo e Chiru nada disseram.

Pra finalizar este livro temos ainda dois capítulos, um é o Reunião de família IV e por fim o Caderno de pauta simples. Basicamente teremos nestes dois capítulos passagens sobre o dia a dia no casarão de Santa Fé, o convívio de Floriano com seus familiares, sem falar no sacrifício que é estar ao lado de Sílvia sem poder tocá-la. Rodrigo e Flora como todos já sabemos não vivem mais como um casal normal e o motivo pelo qual Rodrigo encontra-se acamado é por ele ter trazido do Rio de Janeiro sua amante. Isso todo mundo na cidade já sabia e devido a uma noite tórrida de amor Rodrigo quase bate a cassuleta, rsrs. Um momento bem legal já no finalzinho do livro é que esta amante recebe um recado de Rodrigo para que ela passe numa hora x marcada por ele em frente ao casarão

E é nessa penúltima leitura que a gente fica na expectativa pra saber se vamos ter um romance entre os dois, se eles vão finalmente chegar “aos finalmentes”, rsrs. Como ainda teremos o último livro ficarei no aguardo. Espero que tenham gostado e essa é realmente uma resenha bem gordinha, mas não tem como não ser. E olha que ainda falta bastante coisa, só quem leu ou saberá do que se trata e desde já recomendo que comece a leitura dessa obra fantástica. Obrigado galera e até O arquipélago vol. 3 (último da série)…

livro anterior: O arquipélago vol. 1

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2 pensamentos sobre “Resenha: O Tempo e o Vento; O arquipélago Vol. 2 (Erico Verissimo)

  1. Uma curiosidade: Em o arquipélago, vol, 2, Floriano em 30/11/1945 afirma estar com 34 anos (Caderno de pauta simples, pag.119). Ao final deste mesmo capítulo ele diz que sua irmã, Alicinha, morreu quando ele tinha 10 anos (Caderno de pauta simples, pag 125). Estivessem estes números corretos, e Alicinha teria que ter morrido em 1921. no entanto ela morre depois da revolução de 1923 ou, mais especificamente, segundo a cronologia ao final do mesmo volume, em 1924. Teria o autor cometido um engano ou algo que me passou desapercebido?

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    • Rapaz vamos buscar isso juntos!?.. pois mesmo lendo a obra não me ative com estas datas. se for este o caso, acredito que por se tratar de uma obra muito extensa Erico Verissimo também tenha se perdido, ou até mesmo se equivocou. Aconteceu coisas semelhantes logo nos primeiros livros de Tolkien (O senhor dos Anéis).. Lendo As Cartas de Tolkien ele recebeu algumas cartas de pessoas que encontravam erros na cronologia da obra. Mas você levantou uma questão bem interessante e vou pesquisar sobre. Obrigado por ler a Resenha. Desculpe a demora pela resposta. Obrigado mais uma vez…

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